quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Salmo

Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti


in “O Novíssimo Testamento” de Jorge Sousa Braga
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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Alentejo



Meu rico Alentejo
Planícies cheias de nada
Cheias de ar puro
Terra sempre amada.

É lindo
Um autêntico tesouro
Em que o trigo que o cobre
Parece mais que ouro.

Sentimo-nos tão bem perto dele
É como se nunca o tivéssemos visto
Nem vivido
É como um mundo nunca antes existido.

Aquelas terras sem fim
Aquela natureza pura
Aquela vida
Este amor que sempre perdura.

Quando posso estar perto de ti
Sentir o teu cheiro
Correr nesse mato sem fim
Ser dona desse jardim.

Oh Alentejo, vou estar sempre apaixonada por ti.

(AK)
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Angústia



Para quando, o voo mais alto?
Para quando, o fim dessa angústia?
Até onde me levará esse caminho?
Para quando, o fim dessa discórdia?

O sofrimento, esse, tem nome!
Há de saber esquecer, há de saber perdoar!
Não é fácil saciar essa fome!
Há de saber compreender! Há de saber avançar!

A amizade, essa sim, prevalece.
É como um diamante, é preciso de a apreciar!
Mas há algo que nunca se esquece...
De como podia ser bonito, esse verbo amar...!


(SK)
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sábado, 26 de março de 2011

Despertar




Acordo sem saber onde estou
Percorro caminhos com ilusão
Sei o que sou
E o que sinto no coração.

Não sei o que desencadeia este acontecimento
É uma coisa que sai naturalmente
Eu só queria acordar e ver que era diferente
Esta razão que me deixa em sofrimento.

O poeta é fingidor mas nem sempre
Ele também escreve o que sente.

(AK)
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sexta-feira, 25 de março de 2011

Dramático




Para que serve o sonho?
Para que serve a ilusão?
Dá-nos cabo da cabeça
Sufoca-nos o coração.
É triste pensarmos assim
Mas é a realidade
Quanto mais amamos
Mais nos machucamos
E mais nos rebaixamos
Mas a vida é assim
Há que saber vivê-la
Dura pouco, sim
E quase ninguém se irá lembrar dela.
O que interessa é seguir em frente
E não olhar para trás
É difícil, mas temos uma força valente
Capaz de enfrentar tudo e toda a gente
Não ligues ao que os outros dizem
Não ligues ao que os outros pensam
Vive por ti e para ti
Juntos dos que te mereçam

(AK)
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quarta-feira, 23 de março de 2011

Acreditas?




Tanto amas, que te enganas
Tanto sonhas, que nem pensas
Não julgas nem duvidas...
Pois vives apenas de momentos,
Tempos, de palavras fingidas.

Respiras mentiras, suspiras bem alto
Olhas o céu como mais ninguém o faz
A vida que tens não é bem o que parece
Tal como o fumo denso que facilmente se desvanece

E quando por fim cais no chão...
E te afogas em soluços desiludidos
É que reparas que tudo não passou
De um futuro e falsos sonhos, por ti próprio infligidos

(Jamie B. H. Rose)
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Poema Dos Olhos Da Amada

Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais nocturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus




Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

Vinicius de Moraes
Paulo Soledade
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A partir de hoje...

...publicarei aqui poemas de amor que os apaixonados podem usar para surpreender a sua cara-metade no Dia dos Namorados (ou numa outra qualquer ocasião) – deste que não sejam leitores deste blog, pois claro!

Sempre Você de Geraldo Caetano

Antes de te conhecer
minha vida era vazia
não sabia o que era viver
não existia o ontem
nem o hoje e o amanhã
Depois que te conheci
ontem foi mais um dia
que te amei
hoje é mais um dia
que estou a te amar
amanhã será mais um dia
que te amarei
Bendito o dia que te conheci
para colorir minha vida
dar conforto ao meu espírito
e sossego ao meu coração
Agora...
tenho o ontem para lembrar
o hoje para viver
e o amanhã para ser feliz
ontem,
hoje,
amanhã,
sempre, sempre...
Você
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Soneto de Inverno




Madrugada...muito tarde na vida!
os gélidos ventos da solidão,
arrastam os passos da dura lida,
e espalham as saudades pelo chão.

nas mãos morenas e nuas de esperanças,
luvas de lãs vermelhas aquecem,
o que alma e coração não esquecem:
dores d’amores ou velhas lembranças.

com face rubra de vergonha e frio,
envolta no gorro de abas viradas,
reflicto na água gelada do rio...

senhor Deus, escute meu triste apelo:
no inverno, lágrimas enclausuradas,
não tarde para mandar-me o degelo!

(Betha M. Costa)
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sábado, 8 de janeiro de 2011

Queria...

Queria de volta cada promessa, cada jura.
Qualquer tola declaração de amor,
a mais pura.

Queria sentir de novo na língua o gosto do primeiro beijo,
no corpo, o arrepio do primeiro toque do nosso desejo.

No coração, queria o susto do primeiro palpitar...
fechar os olhos e por um único momento, me deixar levar.

Queria esquecer o sabor amargo dos teus caminhos passados,
os nós que na garganta ficaram entalados.
O peso em meus ombros de nossos dias sombrios...
Queria destruir estes teus muros inabaláveis e frios.

Queria controlar o relógio do tempo
e reviver aquele nosso melhor momento.

Jogar pela janela toda aquela angústia engolida
e deixar a saudade em um canto qualquer,
esquecida.

Queria reabrir as portas pra tentação...
reanimar essa "coisa" que bate no peito, chamada:
coração.

Me diga de verdade...
Posso querer?
Ou não?

(Andréa Maia)
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O amor é...?

O amor é inútil: luz das estrelas
A ninguém aquece ou ilumina
E se nos chama, a chama delas
Logo no céu lasso declina.

O amor é sem préstimo: clarão
Na tempestade, depressa se apaga
E é maior depois a escuridão,
Noite sem fim, vaga após vaga.

O amor é uma estação perigosa:
Rosa ocultando o espinho,
Espinho disfarçado de rosa,
A enganosa euforia do vinho.

O amor a ninguém serve, e todavia
A ele regressamos, dia após dia
Cegos por seu fulgor, tontos de sede
Nos damos sem pudor em sua rede.

(in ‘Guia’ de António Zambujo)
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domingo, 24 de outubro de 2010

Ar Livre


Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
— E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!

(Miguel Torga)
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domingo, 25 de julho de 2010

Soneto do Orfeu




São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar, que actua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.

(Vinicius de Moraes)

Fonte: Grupo Castelo do Sonho
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Se meu coração falasse...




Se meu coração falasse
faria até um entrelace
de poesia e de emoção
embalados na paixão.

Se ele pudesse dizer
que ama a vida e quer viver
não seria afligente
essa dor que a gente sente.

Contaria para o mundo
esse imenso amor profundo
que trago dentro do peito
e minha alma não dá jeito.

Se meu coração falasse
que quer unir tua face
dar um beijo demorado
o que de mim foi tirado.

Mas meu coração não fala
permanece triste e cala
na mais pura solidão
sem negar, por ti, paixão.

Se meu coração falasse,
de um encontro face a face...
gritaria uma verdade:
a imensurável saudade!

(Ruth Gentil Sivieri)
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sábado, 10 de julho de 2010

Dádiva




Se morrer a descansar
Eu peço a Deus, a cantar
Que me deixe adormecer;
Mas se vir o teu olhar
Eu peço a Deus p'ra esperar
E não me deixar morrer

Põe a tua mão na minha
Olha p'ra mim e caminha
Quero ser a tua luz
Quero seguir os teus passos
Dar-te o meu corpo em abraços
E levar a tua cruz

Põe no teu olhar a esperança
Faz de mim nova criança
Acende o luar no céu
Põe a tua mão na minha
Sorri p'ra mim e caminha
Que o teu caminho é o meu

(Teresa Tarouca)
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Não sei a quantas ando!




Eu não sei a quantas ando
Já nem sei se é noite se é de dia
Sei que só de vez em quando
Eu encontro a minha simetria

Quando tudo bate certo
Nunca acerto e cá vou andando...
Só estou bem quando estás perto
E já não sei bem a quantas ando

Já fui ave de poleiro
Enfeitava e cantava também
Encantava o mundo inteiro
E depois?... Diz-me o que é que isso tem!...

Bati asas. Fui à Lua
Fui em bando, fui de contrabando
Descansei na tua rua
E já não sei bem a quantas ando

Fui papoila na seara
A melhor prenda de minha mãe
Essa espécie de ave rara
E depois?... Diz-me o que é que isso tem!...

Eu já não sou tão prendado
Só às vezes, lá de vez em quando...
É quando sou teu amado
E já não sei bem a quantas ando

Eu só estou bem
De vez em quando...
Que é que isso tem?
A quantas ando?

(João Monge)
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terça-feira, 29 de junho de 2010

A ti...

Yo vi una ave
Que suave
Sus cantares
A la orilla de los mares
Entonó,
Y voló...

Y a lo lejos
Los reflejos
De la luna en alta cumbre,
Que argentando las espumas,
Bañaba de luz sus plumas
De tisú....
Y eras... tú!

Y vi un alma
Que sin calma
Sus amores
Cantaba en sus tristes rumores,
Y su ser
Conmover
A las rocas parecía;
Miro la azul lejanía,
tendió su vista anhelante,
Suspiró,
Y cantando, pobre amante,
Prosiguió...
Y era... yo!

(Ruben Darío)
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Promessa




Depois, verás! O vento há-de cantar
estranhas melodias ignoradas
e a tona verde, líquida do mar,
há-de encher-se de rosas encarnadas.

O sol será mais sol, mais tutelar
a aquecer terras frias, mãos geladas,
e os vôos hão-de erguer-se pelo ar
no encantamento de asas libertadas.

Depois verás! Nem cruzes nem espinhos!
E há-de haver água em todos os caminhos
e em cada sombra o riso de um lampejo.

Há-de crescer o bem, secar o mal,
quando eu florir teus lábios de mortal
com a imortalidade do meu beijo!

(Maria Helena)
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ricochete




Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia, é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

(Natália Correia)
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Voz


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Às vezes, há uma voz que se levanta
Mais alta do que o mundo e do que nós
E faz chover-me os olhos quando canta
Num pranto que emudece a minha voz

Afunda-me os sentidos e o tempo
Ao ponto mais distante do que sou
E abraça aquele lugar que tão cinzento
Se esconde sob a névoa que ficou

E grita-me no peito quando sente
Chegar a face triste de um amor
Mais alta do que o mundo e do que a gente
A voz já não é voz, chama-se dor

(Diogo Clemente)
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