quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Beijos....

Histórias de uns beijos

Ouvia gabar os beijos,
Dizer deles tanto bem,
Que me nasceram desejos
De provar alguns também.

Esta fruta não é rara,
Mas nem toda tem valor,
A melhor é muito cara
E a barata é sem sabor.

Colhi-os dos mais mimosos,
Provei três, mas por meu mal,
Ao principio saborosos
Amargaram-me afinal.

Um colhi eu de uma bela,
Que era rosa, sem ser flor,
Se tinha espinhos como ela,
Dela também tinha a cor.

Vi-a a dormir e furtei-lhe,
Um beijo que a acordou
Eu gostei, porém causei-lhe,
Tal susto que desmaiou.

Logo que a vi sem sentidos,
Fugi sem outro lhe dar,
Pois beijos sem ser pedidos
Não são coisas pr’a brincar.

Porém deste beijo ainda,
Pouco tive que dizer,
Pois a tal rosa, era linda,
E tornou a reviver.

Outra vez duma morena,
Olhos azuis cor do céu,
Corpo esbelto mão pequena,
Um beijo me apeteceu.

Pedi-lho e então com bons modos,
Pedi-lhe do coração,
Zombou-me dos meus rogos todos,
E respondeu-me que não.

Zombei como ela zombava,
E um beijo à força lhe dei;
Mas, bem dado ainda não estava,
E c’um bofetão o paguei.

Custou me caro o desejo,
Que mui caro ela o vendeu,
Pagar por tal preço um beijo,
Assim não os quero eu.

Este mais do que o primeiro,
Me deixou fraca impressão,
quis provar ainda um terceiro,
Para não jurar em vão.

Mas não quis fruta roubada,
Que mal com ela me dei,
Uma dama delicada,
Ofereceu-ma...eu aceitei.

Ai que boa fruta era!
Estava mesmo a cobiçar,
Passar a vida quisera
Tal fruta a saborear.

Mas no meio da colheita,
Da fruta o dono apareceu,
Zelosos olhos me deita,
Se zelava o que era seu.

Vendo o caso mal seguro,
Eu logo ali lhe jurei,
Restituir até com juro
A fruta que lhe tirei.

E caso não discordasse,
Não me parecia mal.
Que a ele com juros pagasse,
E à Senhora o capital.

Esta sensata proposta,
Em fúria o arrebatou,
E, por única resposta,
Pr’a luta se preparou.

Oiço ainda gabar os beijos,
Dizer deles muito bem,
Mas findaram-me os desejos,
Já sei o sabor que têm.

(Julio Dinis, Poesias,1859- pág.80-82)